A VISÃO QUE A IMPRENSA TRADICIONAL TEM DOS E-SPORTS, ESPECIALMENTE NO BRASIL

No crescimento do cenário competitivo de jogos, um aspecto é muito importante: visibilidade. Com mais pessoas assistindo, normalmente mais grupos estão representados no grupo de espectadores. Um desses grupos é a imprensa tradicional, que até pouco tempo não conhecia vários dos jogos mais famosos de hoje. Um ponto significativo dentro dessa visibilidade maior é que grupos diferentes tiveram experiências diferentes ao longo da vida, e várias dessas experiências estão atreladas a profissão escolhida. Neste artigo, vamos conversar com três jornalistas que conheceram o cenário de FIFA possuindo um ponto de vista diferente da maioria das pessoas que assistem aos campeonatos.

Em 2017, o brasileiro Rafael “Rafifa” Fortes foi destaque internacional (durante o ciclo do FIFA 17) e acabou assinando com uma equipe europeia. Desde então, tivemos outros brasileiros se destacando em campeonatos de FIFA. No entanto, esses feitos nem sempre são suficientes para que um público novo seja atingido. “Bom, eu conheço o cenário competitivo há pouco tempo. Um ano eu considero ser um tempo pequeno para dizer ter os detalhes de um meio tão grande. O cenário me chamou a atenção em primeiro acho que como para todos a partir do pensamento ‘será que eu também consigo?’. Com o passar do tempo, passei a ser um admirador, a conhecer o meio e as pessoas”, disse Diogo Rossi, repórter da Rádio Grenal (RS). Felizmente, mesmo que essas conquistas não tenham sido suficientes para conquistar a totalidade de um público novo, elas contribuíram muito na divulgação do jogo e do Brasil como uma potência. Matheus D’Ávila, repórter da Rádio Bandeirantes/RS, recorda: “O cenário competitivo do FIFA conheci em 2017. O interesse aprofundado pelo jogo me levou a pesquisas, que me conduziram até os canais de streamers. Deles me [vieram] as informações iniciais do mundo profissional, junto com os principais nomes dos torneios.”  

Depois de atingir um público novo, é importante ter conteúdo de qualidade para manter o interesse conquistado. Hoje, o cenário pode se alimentar dele mesmo, com pessoas se ajudando e incentivando outros interessados em saber mais sobre o FIFA. Sobre isso, Diogo Rossi disse o seguinte: “Eu considero que o interesse por algo está diretamente relacionado ao retorno […] com 1 mês no cenário, tenho um retorno pequeno, mas motivador e isso me faz manter o interesse e ele foi o acréscimo ao fato de eu jogar, de eu ter um ciclo de amigos que joga. Então eu entendo que esse meio precisa ser propagado. Claro que por consequência coisas boas ajudaram, como [o] crescimento da SPQR e os ótimos resultados dos gaúchos SpiderKong e Zezinho, então entendo que o momento é favorável”. Definitivamente, o FIFA pode trazer diversão, mas algo que também é importante é a possibilidade do jogo impulsionar profissionalmente os criadores de conteúdo. Victor Fagarassi, representante do site Torcedores.com e da iSports Brasil, traz uma combinação de fatores para o seu interesse no FIFA e no cenário competitivo em geral: “Primeiramente, o meu sentimento pelo jogo. Antes de tudo, eu gosto de ‘mexer’ com coisas que eu gosto, e o FIFA é uma das coisas que eu amo. E depois, a leitura de que o cenário de e-sports é uma curva crescente. A pandemia [do Sars-Cov-2] acelerou isso, mas naturalmente, os games e todo conteúdo sobre eles crescerão mais e mais. Além de eu gostar, isso é interessante profissionalmente”. Na visão de Matheus D’Ávila, “as referências locais são importantes. O bom desempenho dos brasileiros incentivam a procura pelo game, o ‘querer crescer’. No fim de tudo, o FIFA, dentro do meu círculo social – for fun, é um desafio pessoal, uma batalha anual contra os desempenhos passados. E esse é o grande combustível que faz o consumo aumentar através dos meses.”

Uma boa forma de ter uma ideia ainda mais clara sobre a visão da imprensa tradicional sobre o cenário competitivo de FIFA é comparar o jogo com outros que também conquistaram destaque nacional e internacional. Matheus observa alguns erros básicos na divulgação e transmissão dos campeonatos oficiais: “Focando no lado comunicacional do processo, vejo um erro grave: O FIFA não é inclusivo. As transmissões oficiais são em inglês, sem nenhum tipo de preocupação com países de língua latina. Faço questão de destacar esse ponto: Latina. Ou seja, grandes centros do jogo, inclusive dentro da Europa, não ganham atenção oficial. Em outras palavras, ou se fala inglês ou você está excluído do processo. Para um game de grande abrangência, produzido por uma empresa de faturamento astronômico, vejo como desleixo”. Victor, citando a importância da participação dos clubes de futebol, complementa: “O cenário competitivo do FIFA só usa 10% do seu potencial. Falta acompanhamento da EA e principalmente engajamento dos clubes aqui no Brasil. A impressão que eu tenho é que as pessoas ainda não perceberam o real potencial do FIFA para o espectador. O ideal no Brasil é ter um calendário para ajudar a ter cada [vez] mais investimento nesse meio. O futebol é o maior esporte e um dos maiores fenômenos culturais do mundo. Me parece bem óbvio o potencial que um jogo de futebol virtual tem”. 

Outro ponto importante é a divulgação do FIFA dentro desses novos grupos de espectadores. Se um jornalista conhece e gosta do jogo, existe a possibilidade de ele conversar sobre isso com pessoas próximas, e isso é muito positivo para todos os envolvidos no cenário de FIFA. Perguntado sobre o interesse de pessoas próximas sobre FIFA em jogos em geral, Diogo disse: “Com certeza. Especialmente dos que jogam. Eu entendo que há um interesse mútuo no jogo, na evolução do game. Poucos são os que conhecem e gostam do cenário competitivo. Mas entendo que existe um nicho bem preparado para isso. Posso citar alguns colegas: Douglas Demoliner e Nicolas Andrade, da Rádio Gaúcha, Matheus D’Avila e Henrique Letti, da Bandeirantes, e João Gabriel Silva, ex-rádio Guaíba. Matheus D’Ávila cita que há uma diferença na resposta de um público mais jovem quando comparada a resposta de um público mais velho: “O ponto central não é a categoria em si, mas a faixa etária. Abordar um jornalista acima dos 40 anos para falar sobre e-sports, o interesse do procurado tende a não ser alto. Não é do universo dele o entendimento. Para muitos segue sendo apenas ‘um joguinho’, justamente por não conhecer ou compreender o cenário competitivo. A curiosidade na grande maioria é de onde vem o dinheiro, como é a organização e como um jogador de videogame pode ser visto como profissional. Processos que não são naturais para quem não tem o contexto necessário. Mas o assunto é diferente, na maioria dos casos, com os mais jovens. A aproximação deles com os jogos eletrônicos permitem uma abertura maior para o tema. Muitos já acompanham, tem as suas preferências, o que leva a crer que, com o passar do tempo e a ocupação desses profissionais em posições mais elevadas, a grande mídia absorva os e-sports em suas grades.”

Quando alguém se interessa pelo FIFA, é natural que pesquise sobre o jogo e sobre os campeonatos, buscando entender melhor várias partes do cenário. Após pesquisar e acompanhar o desenvolvimento de alguns desses torneios, é natural que uma preferência fique clara. Diogo Rossi gosta da emoção das partidas eliminatórias: “Gosto do mata-mata. Apesar de saber que uma instabilidade do momento, uma decisão errada possa pesar, isso faz parte direta do competitivo. Então gosto bastante do estilo. Além de me parecer mais atrativo para o público”. Victor Fagarassi, por outro lado, prefere o formato suíço, mas reconhece que existem obstáculos para a compreensão do público: “Eu gosto do formato suíço, é bem mais justo, porém é difícil para o público geral entender de primeira. Acho que o formato Copa do Mundo é o mais ideal.”

Agora que o interesse da imprensa tradicional está crescendo, que tal seus representantes participarem mais, estando presentes inclusive em transmissões de campeonatos? Quando perguntado se gostaria de ter esse tipo de participação, Matheus D’Ávila disse: “Sem dúvida! Mesmo tendo a consciência de que apesar das semelhanças visuais, transmitir futebol virtual é um campo completamente diferente. Espero um dia ter a oportunidade”. Também é claro o interesse de Diogo Rossi: “Com toda certeza. Sou um jogador casual, mas conheço muitos profissionais. Certamente não tenho todo conhecimento técnico, mas tenho o conhecimento jornalístico. Acho que pode dar um bom ‘casamento’, sim.”

O cenário competitivo de FIFA nunca esteve tão forte no Brasil, e a busca por um público maior é um dos passos fundamentais para que essa força não pare de crescer. Boa parte da imprensa tradicional já tem consciência dos pontos positivos e negativos desse meio, e esses jornalistas têm experiência e interesse de sobra para ajudar em um crescimento sustentável e que não deixe ninguém para trás.